Não durma brigada

Quando eu tinha 6 anos, ia entrar no banho pra ir na escola e minha mãe me avisou que a Vovó Catarina tinha morrido. Que ela era boa e que devia estar no céu descansando. Eu chorei, mas essa dimensão de nunca-mais-vou-ver não ficou exatamente clara. Eu lembro de ficar olhando o caixão dela, naqueles velórios feitos em casa, e ter certeza de que ela ainda respirava. Me explicaram que era normal o “corpo meio se acomodar” depois que a alma vai embora. Eu quis, de verdade, ter esperança de receber aquele afeto sisudo que minha avó paterna dava. Mas não tinha mais. “Ela estava doente, era muito velhinha, a vida funciona assim”.
Dois anos depois, eu tinha um amiguinho de escola e catecismo e ele morreu. No banho. Sem mais. Sem menos. A clareza com que tinham lidado com a minha primeira morte ajudou, mas não resolveu. Por que pessoas muito jovens morrem? Minha primeira comunhão foi uma das coisas mais tristes que uma criança pode passar. O pai do Marcelo entrou na fila pra receber a hóstia por ele. O Frei não teve coragem de impedir e o que me restou daquilo é uma cena de filme em que há uma centena de crianças com um travo amargo de dor e incompreensão no peito, além de um punhado de fotos com nariz vermelho.
Depois morreu o Velho Bepe, que não gostava de mim porque “eu era preta”. História pra outro momento. Aí foi o Tio Luiz e o Tio José, que dependiam tanto um do outro que quando um morreu, o outro foi embora 16h depois. Aí foi Tio Ernesto dos olhos cinza que praticamente decidiu que era a hora, mesmo que eu achasse que não. Aí morreu o Zé, que era meu tio e eu não chamava assim, porque parecia uma criança de 39 anos com a gente. Deram um tiro nele num assalto. Morreu na hora. E eu fiz xixi nas calças quando me contaram porque essa vida era mesmo um sopro e eu tava indignada demais pra me controlar. E foi indo… A Tia Inis, a Tia Antonia, o Tio Geraldo, a Tia Lúcia…
Aí morreu Vovó Ana e olha, nem sei como a gente sobreviveu. Porque ela era meio um tudo pra gente. O riso, a sabedoria simples, o cheiro da alfazema com o cigarro… Eu não sei como eu vivo há 10 anos sem ela. Acho que nunca vou saber. Aí a vida foi embora pra minha madrinha Maria e eu achei triste porque queria que ela tivesse recuperado a alegria que era só dela antes de ir, mas ela foi triste. E a gente ficou mais triste ainda.
E como a vida não para, a morte também não, morreu mais gente. Foi Tio Toninho, meu Sombra, sem que eu me despedisse, sem nada, com minha promessa de ser feliz pra ele, feita num dia de tristeza e amor. Foi Tia Maria e foi Tia Ana.
Por mais que eu estude e que minha fé seja imensa, que a esperança de reencontrá-los exista a todo minuto, que eu acredite que eles podem até estar me vendo agora, não me acostumei.
Por que eu to escrevendo isso? Porque to aqui no balanço, com lágrimas nos olhos, pensando em como a vida não dura o bastante e como a gente é pequeno dentro dessa imensidão. Porque eu to com saudade sincera e doída dos “meus velhos” que se foram. Então, eu escrevi, mas vocês não têm nada com isso. Desculpa o textão, não desiste de mim e não desiste do meu conselho: não durma brigada com alguém, pode não ter amanhã. Beijo

(Originalmente publicado no Facebook, em 28 de agosto de 2016)

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Da sina e dos suspiros

Catarina e Beppe, vocês vejam, tiveram 12 filhos. Luiz morreu pequeno, seu gêmeo seguiu. Eu já não me lembro as datas, ou a ordem, eu já pouco me lembro de quase tudo. Das mulheres, pouco sobrou. Foi Antônia, Lúcia e Ana, que devem estar com Deus, trabalhando, porque sempre as vi trabalhar. E sofrer. Sina do sangue. Sobrou Lurdes, que casada com um primo, amaldiçoada, foi. Supõe-se. Não vê ninguém. Além de primo, era machista. Sobrou Izaura, viúva tão nova, fechou-se em copas e seguiu vida. Dos homens, quase todos foram. Geraldo, Antônio, Osvaldo e Lúcio. Todos dolorosamente, porque a seu modo, o sangue também fez morada. E sina. Devem estar com Jesus, talvez com o pai Dele. Sempre tão trabalhadores. Nem todos, não vem ao caso, porque há sempre ovelha que se desgarra. Sobrou Juca, tão longe, ninguém mais viu, talvez andando pelo Caminho de Santiago. Sobrou João, meu pai, o revolucionário de tantas causas e tantos arroubos, que segue, ao fim, em solitude. Sobrou nós, a outra geração. E a geração que se segue à nossa. E talvez, quem sabe, mais uma e uma e uma. Um pouco da sina nos carrega os ombros, mas é preciso avisar à vida. Ainda que haja sina, sempre houve a força escondida, correndo nas veias, a silenciosa resiliência a nos guiar. Catarina? Me ouves? Olha pelos teus, intercede junto à Santa Mãe, com quem sempre teves intimidade, porque os tempos são duros e estamos cansados. Saudade de teus suspiros. Aqueles, os de açúcar.

Da vergonhosa humanidade

 

Ela se virou de lado e tocou a barriga com compaixão própria. Sentiu um calor molhando o rosto e se deu conta que chorava, involuntariamente. Nada mais fazia sentido. Mesmo consciente, parecia estar fora de órbita. Nunca se deu bem com a dor, de uma maneira estranha. Passou a maior parte da vida sem senti-la. Não que não houvesse, mas ela era imune. Se dava conta ao ver o vermelho do sangue em algum lugar, a sujar sua tão neurótica organização . Ou o roxo dos hematomas a lhe dilacerar a pele. Se acostumou a não travar relação com a dor. Quando ela acontecia de maneira mais forte, seu corpo desligava, feito interruptor. Desmaiava. Dormia. Desconectava. Então, agora, isso. Uma dor constante. O tempo todo. Todos os dias. Uma humanidade vergonhosa. A dor, ela mudava. Como zarpões impiedosos e intermitentes. No começo, tentou se dopar. Mas não parecia viável. Depois, tentou o enfrentamento. Contrafóbica. Quis agredir o mundo. Quis arranjar encrenca. Se descobriu pequena demais pra enfrentar, mas entediada demais pra calar. Tentou a fé. A sempre tão presente fé da sua alma. Vai ver lhe abandonara. Ou ela lhe abandonou. Era instável. Ia e vinha. Achava que Deus lhe havia esquecido e se pegava falando com um anjo, no minuto seguinte. Sonhava com seus guias espirituais a lhe dar a mão. Acordava, no limite humano da resistência, perguntando qual era o tamanho da sua loucura, ou se sonhara acordada. Os remédios talvez. Ninava a si mesma, embalada no rumor do seu choro. Não havia companhia bastante. Não havia colo que lhe parecesse possível. Gritou pelos poros. Perdão a quem quer que seja. Uma luz se abriu. Ela não soube dizer o que era. Se era real. Se havia acabado. O borrão tomara conta, esfumaçando até mesmo a dor. Não soube mais se não preferia assim. Borrado. Findado. Acre. Infinito.

Da escuridão da dor


Acordei. Olhei o teto e não reconheci. Acontece. Tem acontecido muito. Talvez seja a dor. Já achei que fosse uma espécie de morte, quando você começa a se desconectar lentamente do tempo-espaço.

É a casa de minha mãe. A luminária me lembrou. Quer um café quente? Não. Quero água quente. Pra bolsa. É quase um acalanto.

As pessoas têm se misturando à minha frente. Não sei de que tempos elas são. Elas vem e vão, se achegam, se declaram, se levantam. Recebo todas. Amo todas. Nem todas, sei perdoar. Humana demais. Não me assunte. Uma falta de pudor, ocupar o tempo me sondando, na expectativa da maledicência.


Uma dormência de alma me toma e eu preciso do rumor do riso. Escuto choro, riso, sussurro. Quem? Não sei. Não me deixem só, no entanto. Mesmo num estado semi consciente, sei da dor e do amor, Traição. Ou não.


Dá-me o remédio. Se durmo, ainda acordo. Vejo o sol. Preciso do mar. Aqui não tem mar. Tinha um mar perto de mim. Dá-me o mar. Dá-me ainda amar. Te suplico. 

Da farsa

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Um copo verde quebrou, hoje. Era verde. Cor da esperança, dizem. Naquele átimo do tempo em que ele ia girando, no ar, quis dar pausa. Fazê- lo parar e observar, para entender o que faz as esperanças se quebrarem. Qual porquê faz as pessoas se romperem. Qual é o exato momento no qual você para de acreditar. Na vida, em algo, em você.
Quando o copo se quebra, aparentemente, não há cola forte o bastante para reestruturar o vasilhame. Você se quebra. E se fossem espelhos, os cacos, provavelmente, se veria pequenas farsas despedaçadas do que já foi inteiro.
O emprego que não conseguiu.
A casa que vendeu.
O carro que bateu.
O cachorro que adoeceu.
O filho que perdeu.
A mão que quebrou.
O amor que perdeu.
A fotografia que tremeu.
A dor que nasceu.
A carne que queimou.
O leite que talhou.
A música que não tocou.
O sonho que era pesadelo.
A praia que não deu.
O gol que não foi feito.
A multa que você levou.
Alguém que morreu.
A conjunção astral errada.
O violão desafinado.
O timing não solidário.
O amigo que te traiu.
A voz que faltou.
A maldição lançada.
O tumor que cresceu.
O sangue que jorrou.
A barata que voou.
O pé que torceu.
O cabelo que caiu.
A espinha que nasceu.
A unha que quebrou.
A trilha que acabou.
A lágrima que molhou.
O salto que descolou.
A tira que arrebentou.
A mentira que foi dita.
O macarrão que colou.
A dor na coluna.
A culpa.
O ar que faltou.
A luz que falhou.
O pneu que furou.
Farsa. Pequenas farsas da grande farsa.
Mas você junta os cacos. Você embrulha cuidadosamente em jornal pra não se cortar. Quisera varrer para debaixo do tapete e esquecer. Quisera amnésia. Quisera anestesia. Penteia o cabelo. Conserta a maquiagem. Pega na gaveta um sorriso e ajusta no rosto. Em sendo farsa, que seja sorriso. Não menos.

De ferida e de amor

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Uma ferida se abriu e um fio grosso e vermelho escorreu, por entre os seios. Podia ser em qualquer lugar, porque dor de amor dói o corpo todo, mas ela era conservadora com sentimentos e preferiu sangrar onde parecia mais trágico e habitual. O coração. Sangrava fisicamente, porque sangrar sem o calor do líquido, parecia-lhe pouco também. Como toda ferida, essa também começou a cicatrizar e antes que se formasse pele nova, sentiu que algo voltava a pulsar. Permitiu. Tola que era, permitiu, como sempre. Mais uma vez, sangrou.
E esse ciclo foi se repetindo num infinito indecifrável, em que ela não mais sabia, quando estava fechando, quando estava abrindo. Com o tempo, não eram apenas os amores que lhe abriam a ferida. Era uma morte, uma deslealdade qualquer, uma noticia ruim, uma contrariedade, um abandono. A pele tinha ficado fina. Tivesse ao menos cicatrizado, estaria pele grossa, mais calejada. Mas não, ainda tentando se fechar, ela se reabria, até que por fim, talvez, desistiu de ver tudo cicatrizado. Permitiu a ferida aberta, expondo o coração, sem nenhum pudor. Abandonou temores e feito aventureira irracional, saltou sem proteção e sem asas. Se machucava mais facilmente, sangrava mais, mas a ferida também, habituada ao processo, corria a cobrir-se, pele fina e cansada. Conferia uma certa liberdade ser destemida. Era, por certo, coragem. E dessa vez, percebeu, a ferida não fecharia. Fez-se nominal e aguda e lavou-se toda na própria dor. Como que certa de que em não sendo amor, restava-lhe ser dor. Resiliente e ainda desfeita, aceitou.  Sorriu, ainda que corressem dois rios caudalosos, nela mesma. O vermelho, do sangue. O quase transparente e salgado, das lágrimas.

 

Do Samba

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O batuque sempre me emocionou. Não sei explicar, nasceu em mim, sem que eu soubesse motivo. Foi felicidade extrema, quando na faculdade, os meninos formaram um grupinho. Infinitas vezes, preferi o ritmo dos instrumentos deles do que o silêncio da biblioteca. Desconfio, inclusive, que me ajudava na criatividade necessária. Escutei mais Almir Guineto do que rock’n roll, na vida, muito provavelmente. Cantar a plenos pulmões, “erga a cabeça e enfrente o mal”, curou mais minhas dores existenciais, do que anos de terapia. Não se ofendam, os psicólogos. Cada pessoa funciona de um jeito, né?
A vida, por sorte, ou afinidade, sempre me deu amigos ligados à música e acompanhei rodas de samba e sambas de roda, com a mesma alegria que como doce de leite. Mas eu, tão tola, nunca entrei em uma quadra de escola de samba, em São Paulo. Ou o destino me reservava meu amor verdadeiro e eu não tinha me dado conta. O Rio me esperava e certamente, esse era mais um dos planos, que ele me reservava.
Fui ver o desfile em 2016, tão despretensiosamente – até porque o sambódromo não me era novidade – que estava com a expectativa de quem espera o pão na chapa na padaria: quase nenhuma. Mas minha amiga ao lado, já adoentada do mal que me acomete, sofria com o desfile fraco da minha então, atual e provável eterna menina dos meus olhos. Algo borbulhou por dentro e eu quis que aquilo crescesse, quis que fosse lindo, quis fazer parte. Comecei a ir para a quadra da escola e aquilo me tomou os nervos, a pele, os músculos. Coração é músculo, né?
Coração pulsa mais forte do lado da bateria. Eu garanto. Acho que cura até alguma patologia cardíaca. Me escuta. Então, eu fico lá, entorpecida com o som, o ritmo, hipnotizada pelos movimentos. Arrepio a pele, perco a voz, doem os pés, transpiro. Tem samba no meu sangue. É alguma disfunção genética. Uma predestinação emocional. Não sei, não me questione. Aquele conjunto de suor, lágrima, sorriso, ritmo e sons possuem mágica. Você quer mexer, abraçar, quer sorrir. Me deixei levar. Quando vi, já te amava. É amor novo, vão dizer. Talvez. Vai ver te amo de outra vida e você já sabia desde sempre. Ontem, andando pela ilha, comemorando o samba escolhido, entre amigos, a gente fingiu que era velha guarda, ainda contigo. Foi quase palpável. Foi quase premonição. A imagem de um bando de amigos sinceros, já velhos, unidos pela alegria e pelo batuque, gingando lentamente, por amor.
Se um dia, eu deixar de estar aí, por você, vou chorar. Te amo, União da Ilha, minha menina dos olhos.

A pedra e a borboleta

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Ele estava no alto da montanha e olhou para o vale, com as contrariedades disfarçadas, como lhe era hábito. Antes tivesse mantido a traquinagem infantil de outrora, em que rasgaria o chão, para não morrer de tédio com o que sentia. Seus humores, agora, eram silenciosos, o fogo calculado. Tão silenciosos que não se podiam adivinhar facilmente. Ele odiava o cheiro acre que tinha sentido, então refugiou-se onde era seu canto, atrás de paz. Subiu calmamente cada pedaço de terra, afim de ver o todo do alto. Quando chegasse onde planejara, colocaria a paz em prática, de modo peculiar. Explodindo. Raciocinando. Rasgando. O que fosse. Não se importou em esquivar-se do que fosse necessário. O que deve ser feito, é feito. O mundo girava assim para ele, numa certa cadência decidida. Depois, o que dele fosse, dele seria, ainda que não sobrasse pedra sobre pedra, para assim ser. Primeiro, o justo. Era só respirar. Ver em outra perspectiva. Cortar a machado o problema, quase em solução budista. Depois? Depois, as pedras rolam. Quando estivesse em si, voltaria para o além horizonte. Sentou com calma, ainda ajustando a vista para olhar ao longe. Então sentiu uma leve brisa, quase um roçar na pele. Borboleta teimosa que rondava. Achou graça porque esse farfalhar insistia em acompanhá-lo. Era o símbolo mais básico daquela mulher. Talvez o mais discreto que lhe podia vestir. Talvez ela achasse que ele não lhe notaria, assim brincando de pequena bailarina, no ar. Melhor que os tufões estabanados, que de tanto em tanto, ela se fantasiava. Observou a pequena colorida, em pouso irrequieto, na pedra e sentiu falta de quando ela era arfar quente. Piscou os olhos e concentrou no que lhe cabia. Ela não iria embora. Conhecia. Então, ela, ela vê-se depois. Permitiu que o rio de dentro saísse. Quase luz quente que estrilava pelo céu. Não era de trovejar. Era de bradar curto, rápido, arisco. Alvo, záz, fim. Mas foi por demais. Não deu-se conta que dois rios se abriam abaixo dele, de tanto que havia para escoar. Rasgava a terra, em grito oco. Intimidou-se por dois átimos de segundo e por fim, deixou-se levar. Do chão, ainda que aberto, não se passa – ele sabe, como sempre soube. Sentiu um cheiro e suspeitou fosse dendê. Foi só ali, já quase escondido pela terra que ainda ruía, que atentou a fresta de luz. Borboleta voando. Sorriu. Nada abalava, de fato, aquela. Os trovões, as tempestades, os rios caudalosos, os humores, os ventos. Ela ainda voava. Como nada a acontecer. Não foi embora, apenas o seguiu. Como antes, sem que ele lembrasse quando. Como parecia ser que sempre o faria. Deu-se conta que a paz podia ser isso. Saber-se companhia, mesmo em ruína. Queria falar, mas calou- se e recostou para dormir. Sereno, a borboleta lhe guardaria.

Entre o grito e o silêncio

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Os poros ardiam, como uma micro febre celular, um a um. Se expandiam e se encolhiam, minuto a minuto, num suor constante, num arrepio ocasional. O arrepio crescia, calafrio em espiral e um cheiro acre tomava o corpo. Um vermelho de lama escorria nas veias e queimava cada trecho que podia sentir. Um balançar doentio entre a euforia e o medo se arrastavam por dentro e não soube dizer o que era. Vai ver o fim do mundo. A respiração rareava, tanto mais quanto o cérebro lutava por controlar a avalanche. Fechava os olhos, em busca de um clarão, mas ouvia uma espécie de estampido e voltava ao ponto zero, como se um fio de prata lhe trouxesse, aos trancos, de volta. Tocou o peito, em busca de sentir o coração, mas não lhe autenticava ritmo conhecido. Sentia riacho caudaloso e quente escorrendo pela face, mas o interior continuava a querer explodir. No entanto, vazio. Vazio que lhe rasgava o ventre e lhe acelerava o ponto da angústia. Os chacras, tocados cuidadosamente, pareciam pequenos buracos negros. Sentia-se girar. Fechou os olhos, buscando adormecer. Desistiu em segundos, a escutar o monótono girar da hélice. O vento a lhe esfriar, o ar pesado a lhe ensopar. Então, ouviu, o grito. Não sabia identificar origem. Não reconhecia o sentido. Correndo, sem se mover, acabou por lhe ver o próprio corpo em repouso, a expressão aflita e deu-se conta que era alma, livre e aprisionada, a tentar falar sem ser ao menos ouvida. No grito, buscou. No grito, perdeu-se. Silêncio.

Clavículas Quebradas

Ele veio devagar, a apoiar em sua bengala, claudicante. Era assim, nos últimos meses. Ela não se importava. Sorriu afetuosamente para ele, como fazia nos últimos trinta e cinco anos. Antes de se sentar à mesa, ele beijou a clavícula direita dela, como fazia nos últimos trinta e cinco anos, em todas as vezes que podia. E isto bastou a ela para afagar o coração torturado pela doença dele.

“Como é seu nome?”

“Não importa, anjo meu. Agora, vou te dar a sopa. Obedece sua italiana.”

Ele regulava de idade com ela. Um pouco mais, um pouco menos. Agora, ela não queria mais lembrar. Sua mente inteira sofria, cada minuto, pela mente agonizante dele, tomada pela doença de nome alemão. As pessoas não acreditavam que ela ainda pudesse ser feliz, mas ela era. As pessoas nunca entendem tantas coisas que acontecem entre duas pessoas.

Eles se conheceram de maneira quase estúpida. Ele a atropelou. Se lembrava de acordar, no hospital, e ele estar encantado, observando-a. Sentado na poltrona dos visitantes, ele se levantou, assim que os olhos dela se abriram. De uma gentileza tocante, ele falava pausado que cuidaria dela. Que trocaria as suas fraldas, se assim fosse preciso. Tinha um falar que sibilava e que lhe hipnotizou. Sorria, quase ria. Ela se encantou. Não viu direito seu rosto. Não viu direito nem a cor dos olhos. Viu foram as mãos fortes e precisas. Viu que ele observava com desejo, seu peito nu e arfante, sob o fino lençol. Viu que ele tinha torso largo que lhe poderia acolher naquelas insuportáveis horas de ansiedade que lhe assaltavam. Viu que ele tinha coxas grossas. Ele, por seu lado, percebeu toda esta observação atravessada, por parte dela. O mundo acha que se gosta de alguém por um rosto lindo ou por uma espécie de perfeição inatingível. A verdade é que se gosta das pessoas por pequenos detalhes que muitas vezes não são perceptíveis nem aos envolvidos. Se ele tivesse a face queimada, ela não teria notado naquele instante. E foi, naquele átimo de tempo, que ela acordou, tacitamente, com sua alma, que andaria, para sempre, com aquele homem, desavergonhadamente desejoso do seu corpo. Ele, ele não acordou nada. Ele era só desejo e talvez adoração. Ela, ela só percebeu isto, depois.

Estabeleceu-se, entre eles, uma camaradagem de açúcar e aprendizado pelas palavras. Uma provocação contínua de desejos, satisfeitos de maneira irregular e solitária. Não se uniam, não se soltavam. Com a clavícula quebrada, ela sentia dores lancinantes, mas nunca o culpou pelo acidente. Ele, consciente disto, achava graça que ela escondesse as dores e beijava sua clavícula. Era quase um roçar de lábios. Um toque. Aquele era o ritual de amizade e amor deles.

A vida deles foi um ir e vir. Ele tinha ataques de pânico com tanta proximidade. Ela se irritava por coisas pequenas. Ela desistiu dos títulos. Ele desistiu de se afastar. Ele se exasperava com o excesso de confidências tortas e espalhadas pelo mundo por parte dela. Ela chorava porque ele parecia uma concha secreta e inquebrantável. Ela fazia muxoxos longos com o som “hummm”. Ele começava a contar os numerais devagar em resposta. Ela voltava a sorrir.

Muito além, da consequência do acidente, do qual ela se recuperou rápido, existia algo insondável, a olhos nus, entre estas almas. Cumplicidade. Ironicamente, o anjo que lhe havia atropelado, era o anjo que lhe curava as feridas da alma. A mulher que lhe queria por perto todo o sempre, era a que lhe soltava como se lhe houvesse esquecido, sem rastro. Vieram outros homens e outras mulheres. Vieram outros lugares. Outras dores, livros e músicas. Eles, no entanto, voltavam para o beijo da clavícula quebrada. Voltavam àquilo que nunca saberiam o que era. Porque não precisavam saber. Eles amavam as mesmas coisas. Liberdade. Confiança. Na liberdade deste mundo profano, era difícil a confiança. No sagrado espaço de tempo deles, recuperavam este bem impalpável.

Um dia, voltaram para o que não haviam ainda tocado, de fato. Seus corpos. Foram ficando demais por ali. Nunca se definiram em nada. Um dia ele cozinhava. Outro dia, era ela. Liam os livros. Juntos ou separados. Ouviam música em separado. Tinham gostares parecidos e no entanto, eram hábitos profundamente diferentes. O que lhes unia era o desejo de não ser um único, já o sendo. Cada dia, foi um dia novo. Por trinta e quatro anos irregulares, sólidos e confiantes.

Na manhã de um dia de eclipse, ele acordou estranho. Olhou para ela, passou a mão em seu bumbum e beliscou seu seio, como fazia quase sempre. Por isto, ela não notou diferença. Depois, afastou o cabelo e lhe beijou a clavícula. Como sempre. Olhou sorrindo nos seus olhos e pediu um cigarro, que ele não fumava. Ela o chamou pelo nome para interpelar a mudança e ele disse não conhecer este senhor. Ele era apenas o anjo. Ela sempre o chamou de anjo, mas esta excentricidade de renegar o nome era novidade. Saiu no terraço da casa e tirou as roupas. Desistiu da caminhada matinal. Disse que o novo hábito era tomar sol nu. E assim o fez, desde então. No começo, ela não se espantou. Contudo, ele parou de chamar seu nome e de atender o próprio. Eles eram o anjo e a mulher. Ou algum outro vocativo que usavam desde que se conheceram. Foram perdendo a identidade e se tornando arquétipos do mundo, quase que dissolvidos na bruma do tempo. Ela não se importou por algumas razões. Eram razões ridículas, aparentemente, afinal ele andava a mijar nas calças, até.

O desejo dele nunca cessou. A busca quase diária de seu objeto de desejo era uma molecagem contínua que ele ainda exercitava. Ele ainda ouvia aquela banda de rock. Ele ainda cheirava bem demais, embora estivesse cabeludo demais para um senhor. Estava cada vez mais chato com os períodos de solidão e silêncio, mas em compensação lia ainda e de vez em quando lhe ensinava algo ou recitava uma poesia, como era o costume dele. Ria, copiosamente, de coisas que ela não compreendia, mas o rumor alegre lhe bastava. Por fim, ele, sempre metodicamente, beijava-lhe a clavícula.

Saiu dos devaneios porque ele começou a rir. Então disse, quase que impunemente: “Eu te beijo a clavícula desde que te conheci, para nos provar que é possível, algo que eu nem lembro o que é, mas que nunca acreditamos. Então, faça-me o favor, deixa-me beijar tua clavícula e todo o resto, até o fim dos dias para que, quem sabe, eu me lembre qual era a possibilidade.” Os olhos dela se encheram de lágrimas e ela cedeu o corpo todo para o exercício sensorial dele. Cochichou baixinho, sem que ele sequer entendesse: “Era amor, anjo. A possibilidade, era o amor”

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