Bullying era meu nome do meio

Eu era garota que cresceu demais e não tem onde por os braços. Nada de peito. Nada de bunda. Só muito metro de pernas e braços. E muita brancura. Pra ajudar, eu era a primeirona da classe, a sabe-tudo, a eterna nota 10, sem quase nenhum esforço. Naquela época, não se chamava ninguém de nerd, mas eu era. Não tem glamour nenhum nisso. Pra fechar, era a garota super protegida dos pais mais interativos e participativos da escola. Eu tinha tudo pra sofrer bullying e sofri. Me lembro do dia D em que o bullying passou os limites do aceitável. “M” sempre me falou desaforos horríveis. Eu tinha 10 anos apenas, ela tinha 14. Estudávamos na mesma classe. Eu era uma menina, ela já era mulherzinha. “M” me mostrou revistas pornográficas e me fez ter calafrios porque eu não entendia nada daquilo.  Me mortificou publicamente porque eu era virgem (sim, aos 10 anos, a senhorita “M” achava que eu devia ter transado). Me fez ter vergonha de ir bem na escola. Me xingava. Me aborrecia porque eu não era fantástica na Educação Física. Roubava meus lanches. Escondia meus livros. Me empurrava. Até o dia que “M” me torceu o braço e eu comecei a gritar. Renata, uma amiguinha, saiu correndo e avisou meu pai, que entrou feito tufão pra separar a cria da algoz. Foi tão feio que “M” quase quebrou meu braço. Como “M” estava no alvo da diretoria, depois dessa, “C” tomou seu lugar.

 

“C” era um cara altíssimo, pros também 14 anos dele e ele se limitava a roubar a lição de casa e me dar croques na cabeça. Até que o Eduardo Guiness (escrevo o nome inteiro porque se um dia ele, ou alguém que o conheça, ler, peça pra entrar em contato comigo) me defendeu. Segurou a mão do cara no ar. Eles se entreolharam e se acordaram de alguma maneira que eu não captei. Eu dava colas pro Edu e ele me defendia. Ninguém ia bater na “Ploc”, que era assim que ele me chamava. Era um acordo tácito, mas eu até hoje, fico comovida de me lembrar do grandão, gordo e arredio Edu. Te agradeço todo dia. Se você espirrar, saúde, babe. Vai ver que é por isso que acho gordinhos, lindos.

 

O bullying continuou por toda a minha vida, por diversos motivos. Eles mudaram de foco. Outro dia mesmo, sofri um de gente próxima que supostamente me acha livre demais. Entenda como quiser. Eu nem quero mais entender.

 

A verdade é que durante os anos, eu fui me rebelando contra o bullying em uma vingança quase silenciosa. Nem sempre tão silenciosa. A primeira foi contra a diretora da minha escola. A mesma da “M”, do “C”, do Guiness, da Renatinha. A senhora resolveu me dizer num acesso de fúria que não interessava se eu era a melhor aluna, porque afinal eu era tão magra que não pararia em pé por toda a vida. Em público. A professora veio em minha defesa, mas algo em mim cresceu como um alien e eu berrei, por minutos seguidos, ofensas impublicáveis, apoiada por aplausos efusivos e debandada geral da escola, na sequência. Ameacei-a com denúncia na Delegacia de Ensino. Não houve necessidade. A senhora se demitiu do posto, aparentemente, alegando colapso nervoso. Foi minha primeira “vitória”.

 

Eu continuei minha vida. Estudando. Passando nas faculdades que eu queria. Conseguindo os trabalhos que almejava. Amando quem eu quis. Não me arrependo de nada. Também não me faltou nada. Outro dia, numa festa extremamente familiar, vi que todo mundo tinha sofrido bullying. Menos um dos presentes. Um fulano que podia ter sofrido bullying pelas suas características físicas, mas que confessou, praticava o bullying. Eu sei que esse é um fraco de caráter, devedor, enrolado, mentiroso. E ai só me levou a ratificar uma ideia que me fermenta desde sempre: bullying é formador de caráter. Desde sempre. Eu sou forte, sim, por ter sofrido essas coisas. Eu me aguento bem na base. Eu desço pro playground e sei brincar. O abuso emocional alheio me faz chorar litros, mas não dura muito. E eu continuo em frente.

 

Minha maior vingança no fim é essa: continuar em frente, muito bem e forte, obrigada. Eu resisto. Ou melhor, sou resiliente. De uma maneira que muitos nem sequer conseguem acreditar. Para ciência dos que me leem: “M” foi mãe solteira aos 15 anos, nunca cursou faculdade, nunca trabalhou, parecia uma matrona velha aos 25 anos; “C” virou traficante, envolveu-se em um crime noticiado em Jornal Nacional por meses, sumiu no mundo e foi dado como morto e/ou desaparecido. Você que sofre bullying, respire. Você, certamente, será melhor do que seus algozes. Eles, pela minha experiência, vão acabar mal, sem que você mexa uma palha. Lembrem-se sempre: o maior bullying é o que você pode praticar com você mesmo, quando incorpora o papel de vítima. Sorria, você está sendo filmado pela vida, babe.

 

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2 Comentários

  1. welson

     /  05/11/2012

    Vc escreve bem,eu sei quem são M e C,vc tem toda a razão,o C tbem me pertubou,parabéns pela iniciativa de escrever,minha esposa tem um blog e escreve coisas ligadas a área dela,e coisas do dia a dia,muito legal,pediatranaminhacasa.

    Responder
  2. Kamyla

     /  26/02/2012

    Adorei o texto!

    Responder

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