Essa tal de opinião

Então, é isso. Todo mundo pode dar opinião em tudo? A democracia, a inclusão social e as amaldiçoadas – e/ou benditas – redes nos permitem palpitar em todos assuntos, na vida alheia, na política, na religião. Que a gente se entregue ao deleite de criticar os técnicos de futebol, também por escrito, é uma diversão encantadora. Ninguém vai negar. Contudo, alguém tem que parar vocês todos no processo de opinar tanto, em tudo.

As causas no Facebook se multiplicam como Gremlins na chuva. Garanto que metade das pessoas não tem vaga ideia do que esteja defendendo. São os ativistas de cadeira. Enchem o saco de toda a população, com seus posts cansativamente corretos. Vocês já pensaram em fazer algo de realmente útil ou pelo menos se divertir um pouco? Porque garanto a vocês, páginas virtuais não farão nada pelas domésticas ou pelos desabrigados do Vietnam.

Meu susto verdadeiro começou quando todo o populacho, dos incultos aos hipsters, resolveram opinar no Caso USP. A grande maioria não foi lá ver o caso. Não se ateve ao número irrisório de pessoas que protestavam. Não sabe a insegurança que se tornou o campus. Não estudou, nem estuda, lá. Não deu, ou dá aulas, lá. Vocês não são cientistas políticos. Vocês não são pais daqueles estudantes. Vocês não entendem de segurança. Portanto, vocês estão falando do que não sabem. Simples. Sou daquela opinião anacrônica de que só palpita quem está dentro. Tipo: da-minha-família-só-eu-posso-falar-mal. Ou o terapeuta. Para ciência, como estudei lá, eu podia opinar nesse caso.

Não me senti à vontade pra opinar no Caso Pará. Não sou paraense. Não morei lá. Não sou cientista política. Não estudo a infra-estrutura e a assistência social. Então, eu ouvi, mas não, eu não opinei. Posso até “achar” alguma coisa, mas minha opinião não é balisada o bastante, pra sair proferindo ou fazendo campanha. Não me sinto à vontade pra opinar no Caso Belo Monte. Acho de uma infinita babaquice, os artistas que foram lá gravar suas opiniões, que foram respondidas com maior talento pelos estudantes. Pra proferir opinião real sobre isso, queria ouvir, um engenheiro elétrico, um biólogo, um antropólogo, um físico. Todos apolíticos, de preferência. Também queria falar com um cientista político apartidário. Ai, talvez, eu concluísse algo. Talvez, eu ficasse pelada e pintada que nem índio, atrapalhando o trânsito na Paulista.

Vocês achadores não são de Deus. Sério. Não bastassem achar, vocês querem ter voz ativa, parar o trânsito e fazer passeata. Querem twittar, postar, falar, ser ouvidos. Sinto falta do charme inocente de quem perguntava os motivos, os caminhos, as consequências, pra quem, de fato, entendia. Sinto saudade do tempo em que não saber, ter consciência disso e assumir era virtude e não pecado a se esconder. Não sei infinitas coisas. Não me interesso por mais uns 83 assuntos. Não opino sobre o que não sei ou não me interesso. Eu pergunto. Eu me informo. Eu ouço. Ando achando, tão raras, as pessoas que assumem a ignorância, que ando considerando, os homens desse tipo, os melhores partidos do mundo. Que sonho! Um homem dizendo, por exemplo: “você pode me explicar o motivo desse prédio ter sido projetado assim?” Olha. Morro de tesão. Mas isso, isso é só minha opinião.

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