Le sigarette mi hanno fatto secca*

Dia primeiro de outubro foi o dia D para que eu começasse a luta para parar de fumar. Não foi uma decisão voluntária, mas compulsória. Passei oito horas em um pronto-socorro, com dores, vômitos e tosse, muita tosse. Diagnóstico: pneumonia do pulmão esquerdo. Depois de dias, tentando tratamento em casa, os médicos decidiram me internar. Mesmo internada, meu organismo resistiu bravamente à medicação. Minha fraqueza chegou em um grau que a fisioterapia, após minha alta, era andar cinco minutos pela manhã. Eu não aguentaria mais. Não foi legal. Então, parei. Porque doía muito. Só isso.

Só que essa batalha é um inferno diário. Minha história é anterior ao Dr. Drauzio e sinceramente, acho ele, um mentiroso. Sabe por quê? Porque ninguém fica comendo cenoura o dia todo para não fumar. Porque até água em excesso faz mal. Eu engordei dois quilos, já. Tomo quatro litros de água, em alguns dias, o que me dá tão somente enjoo. Ainda não consigo me entregar a uma rotina de exercícios porque minha capacidade pulmonar não voltou aos 100% – se é que um dia vai voltar.

Nessa toada, o que mais me espanta são os outros. Sim, Sartre tem razão: o inferno são os outros. Aos 45 dias, fui fazer exames no HCor e ao informar minha abstinência maior que a quarentena, ouvi a enfermeira: “45 dias só? Então é fumante”. Obrigada, senhora enfermeira, por me incentivar na minha tentativa desesperada de melhorar minha saúde. Os profissionais de saúde, aqueles que supostamente deveriam saber como nos tratar, chegam a um ponto desses. Ai, você está uma pilha de nervos e ouve de alguém próximo: “Se olhar pra um cigarro, não te amo mais.” Olha, de coração, dispenso a frase porque não ajuda. Sei que as pessoas não fazer por mal. Mas se alguém tem que contar, que seja eu.

Fumar é um vício. Uma doença. Tão ou mais grave que alcoolismo. Sabe o papo clássico do alcoólatra  beber perfume? Pois ex fumantes, quando sentem a fumaça alheia, dão aquela cheiradinha esperta no ar, pra reter o mínimo que seja de nicotina. Sentem uma fissura dolorosa por fumar mais uma vez. Já quase chorei de tanta vontade. Sim, dia e noite, quero furar minha própria decisão. O que segura? Quase nada. Falar com alguém, às vezes. Comer. Morder as pelinhas do dedo.  Dormir. Sim, vou dormir pra não fumar. Beber água. Muita água. Tudo isso protela, mas não resolve a fissura.

Por que eu comecei a fumar? Porque achava que dava mais tonturinha e alegria que beber na balada. Fumava um ou outro. Depois, viciei. Viciei porque namorava com um imbecil que me deixava neurótica, dia e noite, querendo atenção e cigarro tira o sono. Porque tenho um transtorno de ansiedade e o gestual de fumar assenta a alma que é uma beleza. Porque acabei doente pelas duas frases anteriores e cai num processo emocional patológico que as drogas conhecidas pela medicina atual não curam. Mas o cigarro, ah, o cigarro ajudava a controlar de maneira absurda. Então, fumei e muito. Comecei muito tarde e viciada mesmo fiquei só em 2008. Foram quase três anos de um cigarro atrás do outro. Fumei seis anos, desde o primeiro.

Vocês querem ajudar? Dêem uma força. É sério. Parece clichê, mas é a única coisa que ajuda. Aqueles: “força”, “você vai conseguir”, “que bacana”, “vou te dar um presente” ajudam. A minha mãe que amorosamente me abraça e diz: “eu sei que é insuportável, mas você vai superar” é a coisa que mais me faz permanecer na decisão. Minha cachorra ter alergia à fumaça e ficar doentinha também me leva a não fumar. Ficar falando dos males não resolve nada. Ou alguém realmente acha que eu não sei que faz mal? Eu senti na minha pele, o mal. Então, menos hipocrisia e mais pragmatismo na questão porque ela é séria. Encher o saco não ajuda. Papaguear o óbvio não ajuda. Chantagear não ajuda. Aborrecer não ajuda. Aliás, dá muito, mas muito mais vontade de fumar, porque irrita. Irritada, a gente quer fumar.

O que dizer da vida pós cigarro? É possível, mas muitíssimo difícil. Não. A vontade não passa. Segundo os mais sinceros, não passa nunca. Paciência. De bom? A pele melhorou tanto, mas tanto que parece até que eu fiz algum peelling rejuvenescedor. O cabelo está brilhante. Meu hálito melhorou, obviamente. Eu não cheiro mal, mais. Sim, fumante sempre cheira mal, não tem banho, creme ou perfume que dê jeito. Pra ser sincera, eu meio que tinha desistido de usar perfume, porque era um desperdício. O meu olfato voltou praticamente intacto. O meu paladar nem tinha mudado tanto,  talvez porque eu sempre curti sabores. Minha resistência física está um lixo. Quando eu fumava, corria dez quilômetros por dia, hoje, não corro um. É isso ai mesmo que vocês leram.

Você quer parar de fumar? Te dou a maior força. Jogue fora todos as revistas que dizem os males que o cigarro pode fazer, porque disso, você já sabia. Pensa só que você vai ficar perfumado de novo. Ou que sua pele vai melhorar. Esquece o Dr Drauzio e suas cenouras, porque, olha, ninguém merece virar coelho. Beba água. Durma mais. Evite beber e tomar café. Evite sair com aquele povo que fuma mesmo. Se furar tua resistência, perdoe-se. Mande pro inferno quem vier falar demais, com a boca cheia. Afinal, alguém precisa pagar o pato por essa encheção que é largar um vício. Eles se meteram, que paguem o preço. E comece a rezar para algum cientista inventar um cigarro que não faça mal ao organismo. Só assim, a gente ia ter de volta o charme intelectual de um sarau enfumaçado como os do século 19. Ah! Boa sorte. Você tem a minha admiração por tentar parar, assim como eu me admiro muito por continuar tentando não fumar nunca mais.

* “Os cigarros me abandonaram”

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3 Comentários

  1. Olha, por experiência própria digo: uma vez viciado, pra sempre viciado.

    Sou viciada em nicotina. Passei 5 anos sem fumar e, durante esses 5 anos, tive vontade diária de fumar. Não existe ex-fumante: uma vez fumante, fumante pra sempre (isso pros viciados, como eu). O que aconteceu quando tive um stress imenso por morte de pai e o escambau? Um trago… que virou um cigarro… que virou uma carteira… que já faz mais de 1 ano fumando de novo.

    Por isso tenho vontade de bater nas pessoas que dizem que basta força de vontade (pra qq vício!): não, não basta só isso, e vai bem além disso.

    Sorte aí, siga em frente na decisão… e não caia em tentação. Pra quem é viciado, um trago, ou um gole, ou uma cheirada, ou um seja lá o que for, é o bastante pra voltar.

    Responder
  2. modernacoisantiga

     /  27/02/2012

    Ai que lindo, quanta sinceridade, eu adorei mesmo!
    Já fiquei dois anos mentindo para mim mesma, parei de fumar e a compulsão migrou para a comida, engordei 12 kg e entrei em depressão… fui ao psiquiatra e comecei a tratar a depressão e a ‘semi-obesidade’ e aí… com todos aqueles remedinhos eu tinha vontade não de fumar, mas de comer o cigarro… Eu acabei voltando, mas na realidade quero parar urgentemente, fumo há 20 anos.
    Help-me!

    Responder
    • Força!!! Acho que todas as compulsões estão num balaio só… tenho impulsos vários que consigo controlar muito melhor que o cigarro. Acho que é disciplina (muita) e ir se perdoando aos poucos…
      Boa sorte!!!

      Responder

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