Zoológico de gente

Já faz tempo que observo o chamado insólito do turismo para conhecer as favelas do Rio de Janeiro. A Rocinha institucionalizou a prática e tomara reverta os possíveis lucros para a comunidade. Mas cá entre nós, será que isso é correto?

 

O que se passa na cabeça desses turistas, brasileiros ou estrangeiros, que curtem ir ver a pobreza na sua forma mais crua? Por que Michael Jackson achou legal fazer clip lá? Por que gente que eu conheço, que luta contra discriminações e sofrimentos da humanidade programam a visita como se fossem visitar Foz do Iguaçu?

 

Há algo de voyeurismo baixo nisso. É provável que acreditem estar vivendo uma experiência antropológica ou entrando em contato com a forma de organização a que aqueles moradores se submeteram e criaram. Acham interessante a “arquitetura” e a organização espacial, talvez. Eu, no entanto, enxergo a experiência como ir a um zoológico de gente. Vocês estão tratando aquele povo como animais em cativeiro. Aquilo não é reality show. Opa! Atenção, Boninho: reality na favela, feito pra exportação, pode render algum, hein? Aquilo é reality. Não é show.

 

Eu trabalhei em reurbanização de favelas. Eu falo porque sei como funciona. Sinto na carne, ainda, a dor e a delícia do que é uma favela. E posso garantir que visitar favela, na onda do turismo, não ajuda em nada. Nem hoje, nem ontem, nem nunca.

 

A organização “administrativa” da favela surge da inexistência de Justiça – com letra maiúscula – em seus arredores. O justiceiro, o chefe da favela, ou como você quiser chamar não é um mero criminoso. É o cara que te socorre quando teu filho está com febre, quando teu marido te surra, quando acabou a droga. Dois lados da mesma moeda. A justiça dele é estranha. Ele te oferece vingança de um criminoso, como presente, mas ele te dá uma cesta básica, se a fome aperta. Se você conversar com um deles, com a cabeça um pouco mais aberta, vai ver que ele quer benefício próprio, mas também quer ajudar a comunidade. Eu trabalhei com eles e sempre fui bem tratada. A noção deles de certo e errado está deturpada, mas se você morasse em um local em que a coleta de lixo não chega, que a ambulância não atende e que a polícia, muitas vezes, abusa, talvez, tivesse a mesma ideia atravessada de vida. Para toda uma população, é difícil recorrer a alguém, além daquele homem.

 

A conformação espacial da favela, pra sua ciência, não é feita para facilitar a fuga dos criminosos, com suas vielas e becos. Embora, seja fato que isso aconteça, os barracos são construídos separados e muito próximos por algumas razões funcionais. O espaço é pouco, então quanto mais perto, melhor e mais econômico. As paredes do barraco eram de madeira e esse material não dá muita privacidade aos moradores. Por isso, cada barraco tinha sua própria parede de madeira. É pouco, mas era o que tinha. Isso acabava por criar pequenos e exíguos corredores. Hoje, mesmo com a substituição da madeira pelo bloco, as estruturas espaciais foram preservadas e a situação se consolidou emocionalmente naqueles moradores.

 

Eu falei também em delícia da favela? Tem sim. Eu entrava na área, em cima do caminhão e a alegria da criançada vindo ao meu encontro era fantástica. Criança que mora em favela não pensa duas vezes em ir pro teu colo, te encher de beijo e te elogiar. Porque aparentemente tem mais pureza ainda que as outras. Gente que mora em favela quase não tem o que comer, mas te chama pro barraco de braços abertos e sinceridade a postos pra tomar um café, pra comer o bolo que acabou de sair do forno. As mulheres de lá tem uma sincera preocupação quando você parece estar de coração rasgado. Incrivelmente, elas conseguem se por no seu lugar e não demonstrar o menor ranço com a futilidade dos nossos relacionamentos. Sim, porque aquela mulher pode apanhar do marido ou não ter comida pra dar pro filho e o fulano não te ligar, nesse contexto, é de uma futilidade inequívoca.

 

Sinceramente, aquelas pessoas vivem na minha memória. Quase sem nomes, sem rostos ou sem passado, mas estão em mim de alguma maneira e ela é boa. Era gente de verdade que não tinha medo de ser o que era.

 

Vocês que vão fazer turismo em favela, experimentem se unir a uma ONG e ir dar aulas, lá. Ajudar na educação dos pequenos. Cuidar dos cães perdidos. Ensinar que água que mina da terra pode estar contaminada. Vão pegar crianças de lá, no colo, sem o nojinho básico da classe dominante. Vão tomar um café e ouçam essas pessoas de coração aberto. Porque você que curte ir ao zoológico de gente, ao reality de pobreza,  merece só ir pro paredão e ser eliminado.

 

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