Café, silêncio e Caxemira

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Ela tinha sido quase monossilábica a lhe pedir o encontro no café. Ele a conhecia melhor que a palma de sua mão e sentiu que algo estava para ocorrer. Agora, do outro lado da rua, firmou-se na calçada, esperando para atravessar e a observou. O olhar perdido dela viajava dentro da xícara de café. Ela tinha premonições, ele sabia, mas estaria lendo borra de café, como as velhas mouras? O sol só lhe pegava de relance e o cabelo estava quase dourado sob o “ombrellone”. Ela estava vestida de maneira peculiar. O vestido longo, negro e decotado lhe colava ao corpo. Mas ela estava com uma estranha boina xadrez e óculos escuros de fazer inveja à Jackie. Um fiapo de ternura cresceu dentro de seu estômago e lhe subiu pela coluna. Não sabia se lhe amava. Mas de certo que lhe amava. Só percebia quando a sentia assim: entre o céu e a morte. De resto, estava sempre a viver e sorrir sem muito pensar em questões de amor.

Ao se aproximar, ela não emitiu sequer ruído. Entregou-se aos braços dele, como se o mundo fosse acabar. Ele afagou a cabeleira sedosa e fez aparentar uma calma infinita. A mesma calma que lhe fez confiar nele, meses atrás. Era preciso que ela ganhasse confiança, nestes momentos. Quando a achou – como que perdida por este mundo, mas completamente achada por ela mesma – estava furiosa. Ele a acalmou ganhando sua confiança. Era assim que funcionavam. Ela passava horas a falar de si mesma e a questionar sobre ele. Depois, fechava-se em concha e café. Silêncios profundos que precediam um jorro de desabafos salpicados de lágrimas camonianas. Em geral, contava de sua própria vida danificada por aqueles que haviam passado por ela impunemente. Ele admirava esta coisa quase resolvida, quase curada de se enxergar – e aos outros – sem rancor, com perdão e um punhado de impropérios explosivos passageiros. Ele a compreendia porque era danificado. Quem não o é?

Poucos meses depois de se encontrarem em meio a sorrisos e alguns pequenos senões, ela contou. Vivia em fuga. Era perseguida por um amor mal resolvido. Talvez fosse um psicopata. Talvez fosse uma alma de outro mundo. Um ancestral vingativo. Ela e suas crenças confusas. Contou rindo. E desenhou um coração na palma da mão dele com seu dedo indicador. Ele olhou naqueles olhinhos de baunilha e sorriu. Mordeu a ponta do dedo dele e selaram declaração desta maneira muda. Naquele momento, tomaram café da mesma xícara e soou-lhes como um pacto de sangue.

Agora, ela estava lá muda, evocando o café, com seu olhar. O corpo não refletia sequer um tremor da sua alma, que ele, contudo, percebia. Molhou o dedo indicador no café e levou aos lábios dele. Olhou doce para seus olhos e o beijou sofregamente. Então, ela traiu-se na pantomima de tranquilidade. Olhou ao redor por cima dos aros dos óculos. Ele compreendeu de pronto. O algoz a tinha descoberto.

Desde que soube da desdita, ele havia calculado tudo com planejamento matemático. Arrumou malas e as deixou na garage, junto ao automóvel. Comprou passagens abertas e deixou os passaportes em ordem. Fez tudo na calada da noite, sem que ela notasse. Não sabia exatamente o motivo, mas comprou passagens para a Índia. Talvez, porque ela lesse um romance que se passava lá. No entanto, tinha a superstição que só a levaria se ela adivinhasse o destino. Na verdade, sequer acreditava que um dia houvesse necessidade de se utilizar daquele plano mirabolante de fuga da fuga.

Pegou a sua mão e começou a brincar. Prendia a falange junto a palma e dizia um país. Queria que, ao beijar a ponta de seu dedo, ela dissesse a capital. Jogo que jogavam, sem sequer combinar as regras. Ela lhe olhou com olhos de súplica e calou-se. Ele fez o jogo sozinho. Ela sorria a cada nova capital pronunciada, mas permaneceu muda. Então no décimo dedo, ele disse “Índia” e ela o beijou antes da capital brotar dos lábios dele. Retirou-a do café, aos sopetões. O desejo lhe consumia a olhos vistos, chegado sem aviso. Ela foi obediente e o seguiu. Entrou pela porta da casa, tropeçando e lhe abraçando e a amou com uma urgência assustadora. Ela correspondia exatamente no mesmo ritmo que ele. Então, ao encerrar, beijou a ponta do nariz e foi beijar a ponta de seu dedo. O décimo dedo que não ganhou capital. Então, ela suspirou e disse: “Caxemira”.

Caxemira não é capital, ambos sabiam. Caxemira não tinha paz. Vai ver Caxemira era bela. Sabe-se lá porque ambos tinham aquele acordo tácito de se embrenhar na Caxemira. Mas aquela única palavra que ela soltou foi o sinal que lhe faltava. Ele lhe informou da viagem. Ela sorriu. Vestiram-se calados e sorridentes. Ao fechar as portas e apagar as luzes, ela se sobressaltou e voltou para pegar algo esquecido. Voltou sorrindo e o abraçou como se fosse para sempre. Nas mãos, tinha um exemplar de “Shalimar, o equilibrista”, o romance que lia, quando ele a achou.

Os anos se passaram. Não se tem certeza deles. Diz-se que há uma moça de olhos de baunilha que vive ali, na Caxemira, com um equilibrista. Eles parecem se falar por telepatia, quase sempre em silêncio. Tem um café na praça. São conhecidos por ele beijar as pontas de seus dedos e sussurrar cidades sorrindo e por tomarem café sempre na mesma xícara, já envelhecida pelo tempo. Parecem felizes. Sorriem.

 

 

 

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2 Comentários

  1. Airton Fernandes Lieuthier

     /  11/04/2013

    Muito lindo…

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  2. Belíssimo conto, uma viagem de imagens e imaginação, uma felicidade e uma angústia de viver, envelhecer..e não viver…

    Responder

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