Do sorriso

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Ela não sabia quando havia começado, porque, de fato, já era amor, antes da roupa de educação física aportar na rodoviária. Aqueles grandes olhos castanhos, feito duas bolinhas de gude, já lhe pertenciam, antes de sabê-los. Foi cômodo comungar com a boca plena de carnes e aninhar as mãos. Foi mais que conhecido deitar naquele peito. Deixou que seu estado quase de água sólida derretesse, porque assim parecia escrito.
Foi levando os dias e as noites, sorrindo pra vida e procurou não acreditar que era verdade, nem mentira. Tinha medo do cristal quebrar, em algum momento, quando confrontado de sua existência.
Ela que tanto escrevia, não escreveu. Alegria demais atrapalha. Talvez.
Encheu os dias de açúcares e temperos. Achava que estava em algum daqueles clássicos literários que confundem comida com magia. Sorria.
Limpava cada fresta suja de poeira, pra deixar seu amor mais limpo que a transparência de uma cachoeira. Sorria.
Esquentou lençóis com rumores. Dividiu suas dores. Lavou as roupas como se lavasse a alma. Ninou um bichinho em seu peito, sem que ele soubesse. Acreditou. Nem sabia em que. Sorria.
Então, um dia, uma nuvem se esgueirou. Ela reclamou do escuro. Ela esperneou pela luz. Queria abrir as janelas. Queria fechar as portas para que nada fugisse. Ele não via. Ele não escutava. Ele não sentia. Ele, era ele quem sorria.
A chuva caiu. A luz não voltou. Nenhum barco veio buscá-la. Ela remou sozinha, pela noite. Não havia açúcar. Não havia tempero. Sentiu um gosto amargo e não soube reconhecer.
Algo cresceu dentro dela, enquanto, por fora, definhava. Mas ainda assim, sorria. Sorria molhado.
Então, explodiu. O sangue escapou pelas estranhas, escorreu pelo chão, manchou o piso. Não havia mais nada. Não havia esfregão capaz de remover do universo aquela nódoa vermelha. Diluiu com a água que lhe brotava e tentou, quase em vão, deixar o mundo rosa.
Não escreveu. Dor demais atrapalha. Talvez.
Deixou-se levar pelos dias, que o sol lhe aquecesse o vazio. Pegou toda aquela neblina de doces e amargos, vermelhos e rosas, sutilezas e plenitudes e colocou numa caixa. Lacrou com aqueles selos antigos de vela quente. Guardou embaixo da cama. Até hoje, ninguém mexe sob a cama. Melhor assim.
Escreveu. Dores adormecidas ajudam. Talvez.
Ela não sabia quando havia terminado. Algo intuía, era quarta. Parecia sorrir diferente, como se a inocência tivesse acabado. Mas a verdade é que ela, ela não mais sorria.

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1 comentário

  1. garagework

     /  21/04/2015

    Show, moça… Escreve mais…

    Responder

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