Do olhar que sorria

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Tinha cheiro de mato, no cair da tarde. O cheiro molhado de quando a chuva vai embora e deixa tudo numa limpeza cristalina, que lembra orvalho da manhã. Mas era quase noite, o horário em que os ânimos aceitam o que é inevitável e permitem que a lua se instale.
Sentou na grama molhada e olhou o brilho da taça contra o por do sol. Sentia o calor da pele dele, próximo demais, mas não lhe tocava. Viu que ele bebia o vinho, sereno, mas a respiração lhe contradizia, um pouco ofegante, um pouco desejosa do porvir. Um calafrio lhe percorreu a pele, enquanto perscrutava o rosto, em busca de lhe saber os pensamentos. Sem falar palavra, ele notou o frio que lhe chegava, pousou a taça na terra e a puxou para o meio das pernas, lhe encaixou ao peito e envolveu nos braços. Ela gostava dos braços. Braço firme de quem não tem medo, mas não sai em enfrentamentos tolos. Sentiu o coração palpitar e o inverno lhe aquecer por dentro, contraditoriamente.
Era uma posição protetora, acolhedora, mas coração inquieto sempre sai à procura de respostas, para perguntas não feitas. Então, olhou para os olhos, deitando no braço, se entortando em busca dele, procurando o sorriso já conhecido, que brilhava ali, de tanto em tanto, sem ao menos, aparecer. Fez menção de falar, mas ele previu e tocou os lábios de leve com o dedo. Então, sorriu, apenas com os olhos, como ela adorava e lhe beijou suave, na intenção de calar a palavra. Eles se deixaram ir pela luz quente do dia, pela brisa fria, pelo beijo.
Não havia mais frio, não havia barulho de gente, não havia nada, senão eles e pareceu que o mundo ia parar naquela luz, naquele cheiro, naquele minuto. Foram se descobrindo devagar, escorrendo mãos, abrindo trilhas, percorrendo o caminho e o sol foi testemunha cúmplice deles. Deitaram o corpo e as tribulações. Tocaram-se, mas queriam chegar a alma. Na busca, o sol se foi, a lua chegou e desconfiou que tinham conseguido o intento.
Então, desnudados de tudo e até de si mesmos, sorriram de verdade, abraçados. O mundo ainda estava estático, porque tocar a alma é raridade que merece um certo respeito. Ela não se deu conta, mas adormeceu, no peito dele, apaziguada com sabe-se-lá o que ou como. Lembra de sentir que ele lhe cobria com o casaco, aninhava-lhe o corpo e fechava os olhos, em obediência à tranquilidade. Aqueles olhos, do castanho quente que ela tanto desejava, fecharam, mas ela e a lua adivinharam que eles sorriam, despudoramente, sem que se visse.
Desde então, quando a lua vem, um pouco enamorada, busca o sorriso escondido dos olhos dele, assim como ela faz quando amanhece.

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