Clavículas Quebradas

Ele veio devagar, a apoiar em sua bengala, claudicante. Era assim, nos últimos meses. Ela não se importava. Sorriu afetuosamente para ele, como fazia nos últimos trinta e cinco anos. Antes de se sentar à mesa, ele beijou a clavícula direita dela, como fazia nos últimos trinta e cinco anos, em todas as vezes que podia. E isto bastou a ela para afagar o coração torturado pela doença dele.

“Como é seu nome?”

“Não importa, anjo meu. Agora, vou te dar a sopa. Obedece sua italiana.”

Ele regulava de idade com ela. Um pouco mais, um pouco menos. Agora, ela não queria mais lembrar. Sua mente inteira sofria, cada minuto, pela mente agonizante dele, tomada pela doença de nome alemão. As pessoas não acreditavam que ela ainda pudesse ser feliz, mas ela era. As pessoas nunca entendem tantas coisas que acontecem entre duas pessoas.

Eles se conheceram de maneira quase estúpida. Ele a atropelou. Se lembrava de acordar, no hospital, e ele estar encantado, observando-a. Sentado na poltrona dos visitantes, ele se levantou, assim que os olhos dela se abriram. De uma gentileza tocante, ele falava pausado que cuidaria dela. Que trocaria as suas fraldas, se assim fosse preciso. Tinha um falar que sibilava e que lhe hipnotizou. Sorria, quase ria. Ela se encantou. Não viu direito seu rosto. Não viu direito nem a cor dos olhos. Viu foram as mãos fortes e precisas. Viu que ele observava com desejo, seu peito nu e arfante, sob o fino lençol. Viu que ele tinha torso largo que lhe poderia acolher naquelas insuportáveis horas de ansiedade que lhe assaltavam. Viu que ele tinha coxas grossas. Ele, por seu lado, percebeu toda esta observação atravessada, por parte dela. O mundo acha que se gosta de alguém por um rosto lindo ou por uma espécie de perfeição inatingível. A verdade é que se gosta das pessoas por pequenos detalhes que muitas vezes não são perceptíveis nem aos envolvidos. Se ele tivesse a face queimada, ela não teria notado naquele instante. E foi, naquele átimo de tempo, que ela acordou, tacitamente, com sua alma, que andaria, para sempre, com aquele homem, desavergonhadamente desejoso do seu corpo. Ele, ele não acordou nada. Ele era só desejo e talvez adoração. Ela, ela só percebeu isto, depois.

Estabeleceu-se, entre eles, uma camaradagem de açúcar e aprendizado pelas palavras. Uma provocação contínua de desejos, satisfeitos de maneira irregular e solitária. Não se uniam, não se soltavam. Com a clavícula quebrada, ela sentia dores lancinantes, mas nunca o culpou pelo acidente. Ele, consciente disto, achava graça que ela escondesse as dores e beijava sua clavícula. Era quase um roçar de lábios. Um toque. Aquele era o ritual de amizade e amor deles.

A vida deles foi um ir e vir. Ele tinha ataques de pânico com tanta proximidade. Ela se irritava por coisas pequenas. Ela desistiu dos títulos. Ele desistiu de se afastar. Ele se exasperava com o excesso de confidências tortas e espalhadas pelo mundo por parte dela. Ela chorava porque ele parecia uma concha secreta e inquebrantável. Ela fazia muxoxos longos com o som “hummm”. Ele começava a contar os numerais devagar em resposta. Ela voltava a sorrir.

Muito além, da consequência do acidente, do qual ela se recuperou rápido, existia algo insondável, a olhos nus, entre estas almas. Cumplicidade. Ironicamente, o anjo que lhe havia atropelado, era o anjo que lhe curava as feridas da alma. A mulher que lhe queria por perto todo o sempre, era a que lhe soltava como se lhe houvesse esquecido, sem rastro. Vieram outros homens e outras mulheres. Vieram outros lugares. Outras dores, livros e músicas. Eles, no entanto, voltavam para o beijo da clavícula quebrada. Voltavam àquilo que nunca saberiam o que era. Porque não precisavam saber. Eles amavam as mesmas coisas. Liberdade. Confiança. Na liberdade deste mundo profano, era difícil a confiança. No sagrado espaço de tempo deles, recuperavam este bem impalpável.

Um dia, voltaram para o que não haviam ainda tocado, de fato. Seus corpos. Foram ficando demais por ali. Nunca se definiram em nada. Um dia ele cozinhava. Outro dia, era ela. Liam os livros. Juntos ou separados. Ouviam música em separado. Tinham gostares parecidos e no entanto, eram hábitos profundamente diferentes. O que lhes unia era o desejo de não ser um único, já o sendo. Cada dia, foi um dia novo. Por trinta e quatro anos irregulares, sólidos e confiantes.

Na manhã de um dia de eclipse, ele acordou estranho. Olhou para ela, passou a mão em seu bumbum e beliscou seu seio, como fazia quase sempre. Por isto, ela não notou diferença. Depois, afastou o cabelo e lhe beijou a clavícula. Como sempre. Olhou sorrindo nos seus olhos e pediu um cigarro, que ele não fumava. Ela o chamou pelo nome para interpelar a mudança e ele disse não conhecer este senhor. Ele era apenas o anjo. Ela sempre o chamou de anjo, mas esta excentricidade de renegar o nome era novidade. Saiu no terraço da casa e tirou as roupas. Desistiu da caminhada matinal. Disse que o novo hábito era tomar sol nu. E assim o fez, desde então. No começo, ela não se espantou. Contudo, ele parou de chamar seu nome e de atender o próprio. Eles eram o anjo e a mulher. Ou algum outro vocativo que usavam desde que se conheceram. Foram perdendo a identidade e se tornando arquétipos do mundo, quase que dissolvidos na bruma do tempo. Ela não se importou por algumas razões. Eram razões ridículas, aparentemente, afinal ele andava a mijar nas calças, até.

O desejo dele nunca cessou. A busca quase diária de seu objeto de desejo era uma molecagem contínua que ele ainda exercitava. Ele ainda ouvia aquela banda de rock. Ele ainda cheirava bem demais, embora estivesse cabeludo demais para um senhor. Estava cada vez mais chato com os períodos de solidão e silêncio, mas em compensação lia ainda e de vez em quando lhe ensinava algo ou recitava uma poesia, como era o costume dele. Ria, copiosamente, de coisas que ela não compreendia, mas o rumor alegre lhe bastava. Por fim, ele, sempre metodicamente, beijava-lhe a clavícula.

Saiu dos devaneios porque ele começou a rir. Então disse, quase que impunemente: “Eu te beijo a clavícula desde que te conheci, para nos provar que é possível, algo que eu nem lembro o que é, mas que nunca acreditamos. Então, faça-me o favor, deixa-me beijar tua clavícula e todo o resto, até o fim dos dias para que, quem sabe, eu me lembre qual era a possibilidade.” Os olhos dela se encheram de lágrimas e ela cedeu o corpo todo para o exercício sensorial dele. Cochichou baixinho, sem que ele sequer entendesse: “Era amor, anjo. A possibilidade, era o amor”

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