A pedra e a borboleta

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Ele estava no alto da montanha e olhou para o vale, com as contrariedades disfarçadas, como lhe era hábito. Antes tivesse mantido a traquinagem infantil de outrora, em que rasgaria o chão, para não morrer de tédio com o que sentia. Seus humores, agora, eram silenciosos, o fogo calculado. Tão silenciosos que não se podiam adivinhar facilmente. Ele odiava o cheiro acre que tinha sentido, então refugiou-se onde era seu canto, atrás de paz. Subiu calmamente cada pedaço de terra, afim de ver o todo do alto. Quando chegasse onde planejara, colocaria a paz em prática, de modo peculiar. Explodindo. Raciocinando. Rasgando. O que fosse. Não se importou em esquivar-se do que fosse necessário. O que deve ser feito, é feito. O mundo girava assim para ele, numa certa cadência decidida. Depois, o que dele fosse, dele seria, ainda que não sobrasse pedra sobre pedra, para assim ser. Primeiro, o justo. Era só respirar. Ver em outra perspectiva. Cortar a machado o problema, quase em solução budista. Depois? Depois, as pedras rolam. Quando estivesse em si, voltaria para o além horizonte. Sentou com calma, ainda ajustando a vista para olhar ao longe. Então sentiu uma leve brisa, quase um roçar na pele. Borboleta teimosa que rondava. Achou graça porque esse farfalhar insistia em acompanhá-lo. Era o símbolo mais básico daquela mulher. Talvez o mais discreto que lhe podia vestir. Talvez ela achasse que ele não lhe notaria, assim brincando de pequena bailarina, no ar. Melhor que os tufões estabanados, que de tanto em tanto, ela se fantasiava. Observou a pequena colorida, em pouso irrequieto, na pedra e sentiu falta de quando ela era arfar quente. Piscou os olhos e concentrou no que lhe cabia. Ela não iria embora. Conhecia. Então, ela, ela vê-se depois. Permitiu que o rio de dentro saísse. Quase luz quente que estrilava pelo céu. Não era de trovejar. Era de bradar curto, rápido, arisco. Alvo, záz, fim. Mas foi por demais. Não deu-se conta que dois rios se abriam abaixo dele, de tanto que havia para escoar. Rasgava a terra, em grito oco. Intimidou-se por dois átimos de segundo e por fim, deixou-se levar. Do chão, ainda que aberto, não se passa – ele sabe, como sempre soube. Sentiu um cheiro e suspeitou fosse dendê. Foi só ali, já quase escondido pela terra que ainda ruía, que atentou a fresta de luz. Borboleta voando. Sorriu. Nada abalava, de fato, aquela. Os trovões, as tempestades, os rios caudalosos, os humores, os ventos. Ela ainda voava. Como nada a acontecer. Não foi embora, apenas o seguiu. Como antes, sem que ele lembrasse quando. Como parecia ser que sempre o faria. Deu-se conta que a paz podia ser isso. Saber-se companhia, mesmo em ruína. Queria falar, mas calou- se e recostou para dormir. Sereno, a borboleta lhe guardaria.

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