Da vergonhosa humanidade

 

Ela se virou de lado e tocou a barriga com compaixão própria. Sentiu um calor molhando o rosto e se deu conta que chorava, involuntariamente. Nada mais fazia sentido. Mesmo consciente, parecia estar fora de órbita. Nunca se deu bem com a dor, de uma maneira estranha. Passou a maior parte da vida sem senti-la. Não que não houvesse, mas ela era imune. Se dava conta ao ver o vermelho do sangue em algum lugar, a sujar sua tão neurótica organização . Ou o roxo dos hematomas a lhe dilacerar a pele. Se acostumou a não travar relação com a dor. Quando ela acontecia de maneira mais forte, seu corpo desligava, feito interruptor. Desmaiava. Dormia. Desconectava. Então, agora, isso. Uma dor constante. O tempo todo. Todos os dias. Uma humanidade vergonhosa. A dor, ela mudava. Como zarpões impiedosos e intermitentes. No começo, tentou se dopar. Mas não parecia viável. Depois, tentou o enfrentamento. Contrafóbica. Quis agredir o mundo. Quis arranjar encrenca. Se descobriu pequena demais pra enfrentar, mas entediada demais pra calar. Tentou a fé. A sempre tão presente fé da sua alma. Vai ver lhe abandonara. Ou ela lhe abandonou. Era instável. Ia e vinha. Achava que Deus lhe havia esquecido e se pegava falando com um anjo, no minuto seguinte. Sonhava com seus guias espirituais a lhe dar a mão. Acordava, no limite humano da resistência, perguntando qual era o tamanho da sua loucura, ou se sonhara acordada. Os remédios talvez. Ninava a si mesma, embalada no rumor do seu choro. Não havia companhia bastante. Não havia colo que lhe parecesse possível. Gritou pelos poros. Perdão a quem quer que seja. Uma luz se abriu. Ela não soube dizer o que era. Se era real. Se havia acabado. O borrão tomara conta, esfumaçando até mesmo a dor. Não soube mais se não preferia assim. Borrado. Findado. Acre. Infinito.

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1 comentário

  1. Muito interessante o texto, bem reflexivo, a vida e seus mistérios!!

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