Da farsa

image

 

Um copo verde quebrou, hoje. Era verde. Cor da esperança, dizem. Naquele átimo do tempo em que ele ia girando, no ar, quis dar pausa. Fazê- lo parar e observar, para entender o que faz as esperanças se quebrarem. Qual porquê faz as pessoas se romperem. Qual é o exato momento no qual você para de acreditar. Na vida, em algo, em você.
Quando o copo se quebra, aparentemente, não há cola forte o bastante para reestruturar o vasilhame. Você se quebra. E se fossem espelhos, os cacos, provavelmente, se veria pequenas farsas despedaçadas do que já foi inteiro.
O emprego que não conseguiu.
A casa que vendeu.
O carro que bateu.
O cachorro que adoeceu.
O filho que perdeu.
A mão que quebrou.
O amor que perdeu.
A fotografia que tremeu.
A dor que nasceu.
A carne que queimou.
O leite que talhou.
A música que não tocou.
O sonho que era pesadelo.
A praia que não deu.
O gol que não foi feito.
A multa que você levou.
Alguém que morreu.
A conjunção astral errada.
O violão desafinado.
O timing não solidário.
O amigo que te traiu.
A voz que faltou.
A maldição lançada.
O tumor que cresceu.
O sangue que jorrou.
A barata que voou.
O pé que torceu.
O cabelo que caiu.
A espinha que nasceu.
A unha que quebrou.
A trilha que acabou.
A lágrima que molhou.
O salto que descolou.
A tira que arrebentou.
A mentira que foi dita.
O macarrão que colou.
A dor na coluna.
A culpa.
O ar que faltou.
A luz que falhou.
O pneu que furou.
Farsa. Pequenas farsas da grande farsa.
Mas você junta os cacos. Você embrulha cuidadosamente em jornal pra não se cortar. Quisera varrer para debaixo do tapete e esquecer. Quisera amnésia. Quisera anestesia. Penteia o cabelo. Conserta a maquiagem. Pega na gaveta um sorriso e ajusta no rosto. Em sendo farsa, que seja sorriso. Não menos.

Anúncios

De ferida e de amor

1A385DE5-124F-4062-949D-0F708641CDB1

Uma ferida se abriu e um fio grosso e vermelho escorreu, por entre os seios. Podia ser em qualquer lugar, porque dor de amor dói o corpo todo, mas ela era conservadora com sentimentos e preferiu sangrar onde parecia mais trágico e habitual. O coração. Sangrava fisicamente, porque sangrar sem o calor do líquido, parecia-lhe pouco também. Como toda ferida, essa também começou a cicatrizar e antes que se formasse pele nova, sentiu que algo voltava a pulsar. Permitiu. Tola que era, permitiu, como sempre. Mais uma vez, sangrou.
E esse ciclo foi se repetindo num infinito indecifrável, em que ela não mais sabia, quando estava fechando, quando estava abrindo. Com o tempo, não eram apenas os amores que lhe abriam a ferida. Era uma morte, uma deslealdade qualquer, uma noticia ruim, uma contrariedade, um abandono. A pele tinha ficado fina. Tivesse ao menos cicatrizado, estaria pele grossa, mais calejada. Mas não, ainda tentando se fechar, ela se reabria, até que por fim, talvez, desistiu de ver tudo cicatrizado. Permitiu a ferida aberta, expondo o coração, sem nenhum pudor. Abandonou temores e feito aventureira irracional, saltou sem proteção e sem asas. Se machucava mais facilmente, sangrava mais, mas a ferida também, habituada ao processo, corria a cobrir-se, pele fina e cansada. Conferia uma certa liberdade ser destemida. Era, por certo, coragem. E dessa vez, percebeu, a ferida não fecharia. Fez-se nominal e aguda e lavou-se toda na própria dor. Como que certa de que em não sendo amor, restava-lhe ser dor. Resiliente e ainda desfeita, aceitou.  Sorriu, ainda que corressem dois rios caudalosos, nela mesma. O vermelho, do sangue. O quase transparente e salgado, das lágrimas.

 

Do Samba

IMG_0134 (Editado).JPG

O batuque sempre me emocionou. Não sei explicar, nasceu em mim, sem que eu soubesse motivo. Foi felicidade extrema, quando na faculdade, os meninos formaram um grupinho. Infinitas vezes, preferi o ritmo dos instrumentos deles do que o silêncio da biblioteca. Desconfio, inclusive, que me ajudava na criatividade necessária. Escutei mais Almir Guineto do que rock’n roll, na vida, muito provavelmente. Cantar a plenos pulmões, “erga a cabeça e enfrente o mal”, curou mais minhas dores existenciais, do que anos de terapia. Não se ofendam, os psicólogos. Cada pessoa funciona de um jeito, né?
A vida, por sorte, ou afinidade, sempre me deu amigos ligados à música e acompanhei rodas de samba e sambas de roda, com a mesma alegria que como doce de leite. Mas eu, tão tola, nunca entrei em uma quadra de escola de samba, em São Paulo. Ou o destino me reservava meu amor verdadeiro e eu não tinha me dado conta. O Rio me esperava e certamente, esse era mais um dos planos, que ele me reservava.
Fui ver o desfile em 2016, tão despretensiosamente – até porque o sambódromo não me era novidade – que estava com a expectativa de quem espera o pão na chapa na padaria: quase nenhuma. Mas minha amiga ao lado, já adoentada do mal que me acomete, sofria com o desfile fraco da minha então, atual e provável eterna menina dos meus olhos. Algo borbulhou por dentro e eu quis que aquilo crescesse, quis que fosse lindo, quis fazer parte. Comecei a ir para a quadra da escola e aquilo me tomou os nervos, a pele, os músculos. Coração é músculo, né?
Coração pulsa mais forte do lado da bateria. Eu garanto. Acho que cura até alguma patologia cardíaca. Me escuta. Então, eu fico lá, entorpecida com o som, o ritmo, hipnotizada pelos movimentos. Arrepio a pele, perco a voz, doem os pés, transpiro. Tem samba no meu sangue. É alguma disfunção genética. Uma predestinação emocional. Não sei, não me questione. Aquele conjunto de suor, lágrima, sorriso, ritmo e sons possuem mágica. Você quer mexer, abraçar, quer sorrir. Me deixei levar. Quando vi, já te amava. É amor novo, vão dizer. Talvez. Vai ver te amo de outra vida e você já sabia desde sempre. Ontem, andando pela ilha, comemorando o samba escolhido, entre amigos, a gente fingiu que era velha guarda, ainda contigo. Foi quase palpável. Foi quase premonição. A imagem de um bando de amigos sinceros, já velhos, unidos pela alegria e pelo batuque, gingando lentamente, por amor.
Se um dia, eu deixar de estar aí, por você, vou chorar. Te amo, União da Ilha, minha menina dos olhos.

A pedra e a borboleta

image

Ele estava no alto da montanha e olhou para o vale, com as contrariedades disfarçadas, como lhe era hábito. Antes tivesse mantido a traquinagem infantil de outrora, em que rasgaria o chão, para não morrer de tédio com o que sentia. Seus humores, agora, eram silenciosos, o fogo calculado. Tão silenciosos que não se podiam adivinhar facilmente. Ele odiava o cheiro acre que tinha sentido, então refugiou-se onde era seu canto, atrás de paz. Subiu calmamente cada pedaço de terra, afim de ver o todo do alto. Quando chegasse onde planejara, colocaria a paz em prática, de modo peculiar. Explodindo. Raciocinando. Rasgando. O que fosse. Não se importou em esquivar-se do que fosse necessário. O que deve ser feito, é feito. O mundo girava assim para ele, numa certa cadência decidida. Depois, o que dele fosse, dele seria, ainda que não sobrasse pedra sobre pedra, para assim ser. Primeiro, o justo. Era só respirar. Ver em outra perspectiva. Cortar a machado o problema, quase em solução budista. Depois? Depois, as pedras rolam. Quando estivesse em si, voltaria para o além horizonte. Sentou com calma, ainda ajustando a vista para olhar ao longe. Então sentiu uma leve brisa, quase um roçar na pele. Borboleta teimosa que rondava. Achou graça porque esse farfalhar insistia em acompanhá-lo. Era o símbolo mais básico daquela mulher. Talvez o mais discreto que lhe podia vestir. Talvez ela achasse que ele não lhe notaria, assim brincando de pequena bailarina, no ar. Melhor que os tufões estabanados, que de tanto em tanto, ela se fantasiava. Observou a pequena colorida, em pouso irrequieto, na pedra e sentiu falta de quando ela era arfar quente. Piscou os olhos e concentrou no que lhe cabia. Ela não iria embora. Conhecia. Então, ela, ela vê-se depois. Permitiu que o rio de dentro saísse. Quase luz quente que estrilava pelo céu. Não era de trovejar. Era de bradar curto, rápido, arisco. Alvo, záz, fim. Mas foi por demais. Não deu-se conta que dois rios se abriam abaixo dele, de tanto que havia para escoar. Rasgava a terra, em grito oco. Intimidou-se por dois átimos de segundo e por fim, deixou-se levar. Do chão, ainda que aberto, não se passa – ele sabe, como sempre soube. Sentiu um cheiro e suspeitou fosse dendê. Foi só ali, já quase escondido pela terra que ainda ruía, que atentou a fresta de luz. Borboleta voando. Sorriu. Nada abalava, de fato, aquela. Os trovões, as tempestades, os rios caudalosos, os humores, os ventos. Ela ainda voava. Como nada a acontecer. Não foi embora, apenas o seguiu. Como antes, sem que ele lembrasse quando. Como parecia ser que sempre o faria. Deu-se conta que a paz podia ser isso. Saber-se companhia, mesmo em ruína. Queria falar, mas calou- se e recostou para dormir. Sereno, a borboleta lhe guardaria.

Entre o grito e o silêncio

image

Os poros ardiam, como uma micro febre celular, um a um. Se expandiam e se encolhiam, minuto a minuto, num suor constante, num arrepio ocasional. O arrepio crescia, calafrio em espiral e um cheiro acre tomava o corpo. Um vermelho de lama escorria nas veias e queimava cada trecho que podia sentir. Um balançar doentio entre a euforia e o medo se arrastavam por dentro e não soube dizer o que era. Vai ver o fim do mundo. A respiração rareava, tanto mais quanto o cérebro lutava por controlar a avalanche. Fechava os olhos, em busca de um clarão, mas ouvia uma espécie de estampido e voltava ao ponto zero, como se um fio de prata lhe trouxesse, aos trancos, de volta. Tocou o peito, em busca de sentir o coração, mas não lhe autenticava ritmo conhecido. Sentia riacho caudaloso e quente escorrendo pela face, mas o interior continuava a querer explodir. No entanto, vazio. Vazio que lhe rasgava o ventre e lhe acelerava o ponto da angústia. Os chacras, tocados cuidadosamente, pareciam pequenos buracos negros. Sentia-se girar. Fechou os olhos, buscando adormecer. Desistiu em segundos, a escutar o monótono girar da hélice. O vento a lhe esfriar, o ar pesado a lhe ensopar. Então, ouviu, o grito. Não sabia identificar origem. Não reconhecia o sentido. Correndo, sem se mover, acabou por lhe ver o próprio corpo em repouso, a expressão aflita e deu-se conta que era alma, livre e aprisionada, a tentar falar sem ser ao menos ouvida. No grito, buscou. No grito, perdeu-se. Silêncio.

Clavículas Quebradas

Ele veio devagar, a apoiar em sua bengala, claudicante. Era assim, nos últimos meses. Ela não se importava. Sorriu afetuosamente para ele, como fazia nos últimos trinta e cinco anos. Antes de se sentar à mesa, ele beijou a clavícula direita dela, como fazia nos últimos trinta e cinco anos, em todas as vezes que podia. E isto bastou a ela para afagar o coração torturado pela doença dele.

“Como é seu nome?”

“Não importa, anjo meu. Agora, vou te dar a sopa. Obedece sua italiana.”

Ele regulava de idade com ela. Um pouco mais, um pouco menos. Agora, ela não queria mais lembrar. Sua mente inteira sofria, cada minuto, pela mente agonizante dele, tomada pela doença de nome alemão. As pessoas não acreditavam que ela ainda pudesse ser feliz, mas ela era. As pessoas nunca entendem tantas coisas que acontecem entre duas pessoas.

Eles se conheceram de maneira quase estúpida. Ele a atropelou. Se lembrava de acordar, no hospital, e ele estar encantado, observando-a. Sentado na poltrona dos visitantes, ele se levantou, assim que os olhos dela se abriram. De uma gentileza tocante, ele falava pausado que cuidaria dela. Que trocaria as suas fraldas, se assim fosse preciso. Tinha um falar que sibilava e que lhe hipnotizou. Sorria, quase ria. Ela se encantou. Não viu direito seu rosto. Não viu direito nem a cor dos olhos. Viu foram as mãos fortes e precisas. Viu que ele observava com desejo, seu peito nu e arfante, sob o fino lençol. Viu que ele tinha torso largo que lhe poderia acolher naquelas insuportáveis horas de ansiedade que lhe assaltavam. Viu que ele tinha coxas grossas. Ele, por seu lado, percebeu toda esta observação atravessada, por parte dela. O mundo acha que se gosta de alguém por um rosto lindo ou por uma espécie de perfeição inatingível. A verdade é que se gosta das pessoas por pequenos detalhes que muitas vezes não são perceptíveis nem aos envolvidos. Se ele tivesse a face queimada, ela não teria notado naquele instante. E foi, naquele átimo de tempo, que ela acordou, tacitamente, com sua alma, que andaria, para sempre, com aquele homem, desavergonhadamente desejoso do seu corpo. Ele, ele não acordou nada. Ele era só desejo e talvez adoração. Ela, ela só percebeu isto, depois.

Estabeleceu-se, entre eles, uma camaradagem de açúcar e aprendizado pelas palavras. Uma provocação contínua de desejos, satisfeitos de maneira irregular e solitária. Não se uniam, não se soltavam. Com a clavícula quebrada, ela sentia dores lancinantes, mas nunca o culpou pelo acidente. Ele, consciente disto, achava graça que ela escondesse as dores e beijava sua clavícula. Era quase um roçar de lábios. Um toque. Aquele era o ritual de amizade e amor deles.

A vida deles foi um ir e vir. Ele tinha ataques de pânico com tanta proximidade. Ela se irritava por coisas pequenas. Ela desistiu dos títulos. Ele desistiu de se afastar. Ele se exasperava com o excesso de confidências tortas e espalhadas pelo mundo por parte dela. Ela chorava porque ele parecia uma concha secreta e inquebrantável. Ela fazia muxoxos longos com o som “hummm”. Ele começava a contar os numerais devagar em resposta. Ela voltava a sorrir.

Muito além, da consequência do acidente, do qual ela se recuperou rápido, existia algo insondável, a olhos nus, entre estas almas. Cumplicidade. Ironicamente, o anjo que lhe havia atropelado, era o anjo que lhe curava as feridas da alma. A mulher que lhe queria por perto todo o sempre, era a que lhe soltava como se lhe houvesse esquecido, sem rastro. Vieram outros homens e outras mulheres. Vieram outros lugares. Outras dores, livros e músicas. Eles, no entanto, voltavam para o beijo da clavícula quebrada. Voltavam àquilo que nunca saberiam o que era. Porque não precisavam saber. Eles amavam as mesmas coisas. Liberdade. Confiança. Na liberdade deste mundo profano, era difícil a confiança. No sagrado espaço de tempo deles, recuperavam este bem impalpável.

Um dia, voltaram para o que não haviam ainda tocado, de fato. Seus corpos. Foram ficando demais por ali. Nunca se definiram em nada. Um dia ele cozinhava. Outro dia, era ela. Liam os livros. Juntos ou separados. Ouviam música em separado. Tinham gostares parecidos e no entanto, eram hábitos profundamente diferentes. O que lhes unia era o desejo de não ser um único, já o sendo. Cada dia, foi um dia novo. Por trinta e quatro anos irregulares, sólidos e confiantes.

Na manhã de um dia de eclipse, ele acordou estranho. Olhou para ela, passou a mão em seu bumbum e beliscou seu seio, como fazia quase sempre. Por isto, ela não notou diferença. Depois, afastou o cabelo e lhe beijou a clavícula. Como sempre. Olhou sorrindo nos seus olhos e pediu um cigarro, que ele não fumava. Ela o chamou pelo nome para interpelar a mudança e ele disse não conhecer este senhor. Ele era apenas o anjo. Ela sempre o chamou de anjo, mas esta excentricidade de renegar o nome era novidade. Saiu no terraço da casa e tirou as roupas. Desistiu da caminhada matinal. Disse que o novo hábito era tomar sol nu. E assim o fez, desde então. No começo, ela não se espantou. Contudo, ele parou de chamar seu nome e de atender o próprio. Eles eram o anjo e a mulher. Ou algum outro vocativo que usavam desde que se conheceram. Foram perdendo a identidade e se tornando arquétipos do mundo, quase que dissolvidos na bruma do tempo. Ela não se importou por algumas razões. Eram razões ridículas, aparentemente, afinal ele andava a mijar nas calças, até.

O desejo dele nunca cessou. A busca quase diária de seu objeto de desejo era uma molecagem contínua que ele ainda exercitava. Ele ainda ouvia aquela banda de rock. Ele ainda cheirava bem demais, embora estivesse cabeludo demais para um senhor. Estava cada vez mais chato com os períodos de solidão e silêncio, mas em compensação lia ainda e de vez em quando lhe ensinava algo ou recitava uma poesia, como era o costume dele. Ria, copiosamente, de coisas que ela não compreendia, mas o rumor alegre lhe bastava. Por fim, ele, sempre metodicamente, beijava-lhe a clavícula.

Saiu dos devaneios porque ele começou a rir. Então disse, quase que impunemente: “Eu te beijo a clavícula desde que te conheci, para nos provar que é possível, algo que eu nem lembro o que é, mas que nunca acreditamos. Então, faça-me o favor, deixa-me beijar tua clavícula e todo o resto, até o fim dos dias para que, quem sabe, eu me lembre qual era a possibilidade.” Os olhos dela se encheram de lágrimas e ela cedeu o corpo todo para o exercício sensorial dele. Cochichou baixinho, sem que ele sequer entendesse: “Era amor, anjo. A possibilidade, era o amor”

Do olhar que sorria

image

Tinha cheiro de mato, no cair da tarde. O cheiro molhado de quando a chuva vai embora e deixa tudo numa limpeza cristalina, que lembra orvalho da manhã. Mas era quase noite, o horário em que os ânimos aceitam o que é inevitável e permitem que a lua se instale.
Sentou na grama molhada e olhou o brilho da taça contra o por do sol. Sentia o calor da pele dele, próximo demais, mas não lhe tocava. Viu que ele bebia o vinho, sereno, mas a respiração lhe contradizia, um pouco ofegante, um pouco desejosa do porvir. Um calafrio lhe percorreu a pele, enquanto perscrutava o rosto, em busca de lhe saber os pensamentos. Sem falar palavra, ele notou o frio que lhe chegava, pousou a taça na terra e a puxou para o meio das pernas, lhe encaixou ao peito e envolveu nos braços. Ela gostava dos braços. Braço firme de quem não tem medo, mas não sai em enfrentamentos tolos. Sentiu o coração palpitar e o inverno lhe aquecer por dentro, contraditoriamente.
Era uma posição protetora, acolhedora, mas coração inquieto sempre sai à procura de respostas, para perguntas não feitas. Então, olhou para os olhos, deitando no braço, se entortando em busca dele, procurando o sorriso já conhecido, que brilhava ali, de tanto em tanto, sem ao menos, aparecer. Fez menção de falar, mas ele previu e tocou os lábios de leve com o dedo. Então, sorriu, apenas com os olhos, como ela adorava e lhe beijou suave, na intenção de calar a palavra. Eles se deixaram ir pela luz quente do dia, pela brisa fria, pelo beijo.
Não havia mais frio, não havia barulho de gente, não havia nada, senão eles e pareceu que o mundo ia parar naquela luz, naquele cheiro, naquele minuto. Foram se descobrindo devagar, escorrendo mãos, abrindo trilhas, percorrendo o caminho e o sol foi testemunha cúmplice deles. Deitaram o corpo e as tribulações. Tocaram-se, mas queriam chegar a alma. Na busca, o sol se foi, a lua chegou e desconfiou que tinham conseguido o intento.
Então, desnudados de tudo e até de si mesmos, sorriram de verdade, abraçados. O mundo ainda estava estático, porque tocar a alma é raridade que merece um certo respeito. Ela não se deu conta, mas adormeceu, no peito dele, apaziguada com sabe-se-lá o que ou como. Lembra de sentir que ele lhe cobria com o casaco, aninhava-lhe o corpo e fechava os olhos, em obediência à tranquilidade. Aqueles olhos, do castanho quente que ela tanto desejava, fecharam, mas ela e a lua adivinharam que eles sorriam, despudoramente, sem que se visse.
Desde então, quando a lua vem, um pouco enamorada, busca o sorriso escondido dos olhos dele, assim como ela faz quando amanhece.

Do sorriso

image

Ela não sabia quando havia começado, porque, de fato, já era amor, antes da roupa de educação física aportar na rodoviária. Aqueles grandes olhos castanhos, feito duas bolinhas de gude, já lhe pertenciam, antes de sabê-los. Foi cômodo comungar com a boca plena de carnes e aninhar as mãos. Foi mais que conhecido deitar naquele peito. Deixou que seu estado quase de água sólida derretesse, porque assim parecia escrito.
Foi levando os dias e as noites, sorrindo pra vida e procurou não acreditar que era verdade, nem mentira. Tinha medo do cristal quebrar, em algum momento, quando confrontado de sua existência.
Ela que tanto escrevia, não escreveu. Alegria demais atrapalha. Talvez.
Encheu os dias de açúcares e temperos. Achava que estava em algum daqueles clássicos literários que confundem comida com magia. Sorria.
Limpava cada fresta suja de poeira, pra deixar seu amor mais limpo que a transparência de uma cachoeira. Sorria.
Esquentou lençóis com rumores. Dividiu suas dores. Lavou as roupas como se lavasse a alma. Ninou um bichinho em seu peito, sem que ele soubesse. Acreditou. Nem sabia em que. Sorria.
Então, um dia, uma nuvem se esgueirou. Ela reclamou do escuro. Ela esperneou pela luz. Queria abrir as janelas. Queria fechar as portas para que nada fugisse. Ele não via. Ele não escutava. Ele não sentia. Ele, era ele quem sorria.
A chuva caiu. A luz não voltou. Nenhum barco veio buscá-la. Ela remou sozinha, pela noite. Não havia açúcar. Não havia tempero. Sentiu um gosto amargo e não soube reconhecer.
Algo cresceu dentro dela, enquanto, por fora, definhava. Mas ainda assim, sorria. Sorria molhado.
Então, explodiu. O sangue escapou pelas estranhas, escorreu pelo chão, manchou o piso. Não havia mais nada. Não havia esfregão capaz de remover do universo aquela nódoa vermelha. Diluiu com a água que lhe brotava e tentou, quase em vão, deixar o mundo rosa.
Não escreveu. Dor demais atrapalha. Talvez.
Deixou-se levar pelos dias, que o sol lhe aquecesse o vazio. Pegou toda aquela neblina de doces e amargos, vermelhos e rosas, sutilezas e plenitudes e colocou numa caixa. Lacrou com aqueles selos antigos de vela quente. Guardou embaixo da cama. Até hoje, ninguém mexe sob a cama. Melhor assim.
Escreveu. Dores adormecidas ajudam. Talvez.
Ela não sabia quando havia terminado. Algo intuía, era quarta. Parecia sorrir diferente, como se a inocência tivesse acabado. Mas a verdade é que ela, ela não mais sorria.

Sob o signo do sol

Featured image

Quando cheguei, não me recebeste bem. Achei. Os móveis torturados, o curto circuito, a luz apagada, a água fria, o vento. Ah! O vento. Me recebeste com uma tempestade de ventos fortes a derrubar tudo pelo caminho. Minha alma como estrada desfeita. As lágrimas a queimar a face. Dormi abraçada em mim mesma, sem me saber mais.

Então, calor. Calor da terra. Calor de gente de sorrisos fartos. Não dei braço a torcer. Me encontrei. Não me apercebi. O sorriso, o meu, esse já se sabia. O sorriso roubado, retorno de pródigo, sem nenhum pudor. Pudor não é teu nome, Rio. Riste de tudo, colheste minha alegria. Me apaixonei. Não percebi.

A areia no pé, o calor na pele, as gotículas de suor. Transpirei a dor. Vento. Como te fui injusta. Teu vento me recebeu. Teu vento varreu por debaixo dos tapetes, por entre os dedos. Amansei no teu vendaval. Meu vendaval. Te fiz meu. Me fiz tua. Não vi.

Olhei-te em tudo, de perto, descalcei, desnudei, me levaste. Quase sem resistência. Teus apertados olhos castanhos, em meio à turbulência. Umedeceste as entranhas. Me devolveste o que me era direito. Meus olhos abertos. Minha risada. Se um dia me for – não sei, apeguei – te levo comigo, tatuado na alma. Rio de Janeiro, podes me tirar o salto. Rio de Janeiro, podes me despentear. Rio de Janeiro, comecei a te amar. Tu não sabias. Não sabes ainda. Nem eu. Mas, Rio de Janeiro, podes me abraçar?

Pandora de linhas

Image

 

Minha mãe chegou, um pouco trêmula, com a pequena caixa nas mãos.  A voz estava meio insegura, comovida.

“O último crochê da sua avó”

Minha garganta fechou. Os olhos embaçaram. Imediatamente. Nem tinha aberto a caixa. Eu sabia o que tinha lá. Sabia que era uma caixa de Pandora. Que eu abriria e toda a triste cena sairia de dentro, como fumaça que se liberta.
Mas era vovó. Ela sempre mereceu minhas homenagens e palpitações. Mesmo que dolorosamente, levantei a tampa. Então, o novelo, as agulhas, a toalhinha inacabada. Minha toalha. A convulsão chorosa. Latente. Eterna. A memória. Dolorosa. Muda.

“Filha, guarda isso, não sei mais fazer”

O olhar perdido no horizonte. As mãos nodosas tentando acertar o ponto, o gesto certo. Mas esse mal é assim: desliga a luz no interruptor do cérebro, pra nunca mais acender. Cada luz de cada cômodo. Um por um. Por mais que pelejasse – seu verbo usual – não mais aconteceria.
Olhei, cuidadosamente, o vermelho amarrado ao novelo da toalhinha. Não ia ter fim. Nem a toalha, nem a dor. Tudo perfeito até aquele último laço e então o blecaute inoportuno.

“Não lembro mais.”

A dor estampada naqueles olhos. A semi consciência da inconsciência lhe tomando. Eu tão ligada a ela, como sempre, como lá, como agora, guardei tudo, como que pra lhe proteger desse baque. Segurei sua mão e olhei dentro da sua alma. E nós duas choramos, silenciosas e secas, como era nosso feitio, quando acompanhadas. Tirou os óculos.

“Já não me servem pra nada, não é? Guarda”

Eles estão aqui, na minha mão. Guardei, pra não molhar de dor tudo, fechei a caixa como se corresse pra salvar minha própria vida. Pandora é uma travessa. Me encruou a alma e molhou meu rosto. Não volta tão cedo pra caixa. A Pandora.
Saudade, Vó. Saudade pra sempre.

  • Enquanto isso, no Twitter:

    Erro: o Twitter não respondeu. Por favor, aguarde alguns minutos e atualize esta página.

  • O que saiu da cabeça por último

  • Tudo que já rolou:

  • Enter your email address to follow this blog and receive notifications of new posts by email.

    Junte-se a 19 outros seguidores